Ontem encontrei com o tempo. Tinha chovido e eu cancelei um compromisso. Daí nos encontramos, assim mesmo, ao acaso. Certa vez ouvi mesmo dizer que era assim que o tempo aparecia pra fazer companhia.
Minha primeira impressão foi de que ele era um tanto quanto empoeirado pra quem voa tanto, tinha uma cara de quem tem muita história e de quem pouco se importa com as horas. Também achei que ele tinha cara de sábio.
Entre um gole e outro, ele foi logo me contando que me conhece desde que nasci e que comemora meu aniversário todo ano. Disse que estava sempre por perto e que eu nunca vi porque estava sempre andando de mãos dadas com a pressa.
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Eu quis me justificar, mas ele fez um sinal com as mãos e continuou dizendo que a pressa era uma das companhias que as pessoas mais preferiam. Que mesmo que ela passasse correndo, seguindo seu instinto, a gente ia logo pegando carona achando que é assim que se chega longe. Ele disse que até chega mesmo, mas pode não lembrar das paisagens do caminho e de como foi parar lá. E aí é que tá.
Baixando um pouco o tom de voz como quem conta um segredo, ele disse que esse negócio de que ele não volta mais não é verdade. Ele disse que volta sim porque as coisas vivem guardadas nele então é só a gente lembrar o caminho pra ver que está tudo lá como a gente deixou. Ele disse também que a gente pode mudar tudo e que o futuro muda junto. Quando a gente encontra o tempo, percebe que ainda pode fazer muita coisa. Deve ser por isso que dizem que a pressa é nossa inimiga. Ela não deixa a gente parar pra pensar e não sabe o caminho de volta.
